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Pintura

As cores, suas texturas e sua capacidade de se misturar de múltiplas formas me mobilizam e me convocam a instaurar a escuta como primeiro gesto. 

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O ritual da experimentação sustenta a vitalidade do trabalho. A imagem se constitui enquanto acontece, sem antecipação premeditada e sem promessa de resolução. Instala-se um estado de presença intensa em que o gesto responde à matéria e a matéria devolve proposições. Nesse espaço, algo se estabelece entre meu corpo senciente e a pintura — um entre sensível, invisível e pulsante — que passa a dialogar comigo. A imagem revela um querer próprio e convoca meu compromisso com o processo.

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A tela se imiscui no processo e passa a mostrar perguntas solicitando movimento no gesto. O trabalho se organiza pelo risco das junções cromáticas e pela curiosidade diante daquilo que ainda não se sabe como irá se manifestar. A imagem é gestada a partir desse impulso experimental, dessa ousadia alimentada pela excitação da possível descoberta. Cada pintura se desenvolve como um percurso aberto, no qual o destino permanece suspenso e ativo.

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Assumo um lugar de atenção radical. O controle cede espaço à sustentação. A pintura se desenvolve por meio de uma lucidez contínua, na qual o risco atua como força propulsora. O processo se afirma como movimento vivo, sem fechamento prematuro ou domesticação da forma. A experiência se dá na confiança de que algo maior pode emergir quando me mantenho disponível ao fluxo da criação.

​Desse campo relacional emergem léxicos, memórias, ideias e fábulas. Narrar parece ser opcional e não imprescindível. A imagem vai convocando uma ética de maternagem de nutrir o invisível, gestar incondicionalmente o que ainda não se estabilizou, testemunhar avidamente o crescimento de algo que se anuncia forte e necessário. Esse gesto testa um tipo de protagonismo e autonomia, uma capacidade íntima de sustentar o que pede nascimento. 

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O processo pictórico se configura como espaço de escuta e responsabilidade. A pintura se

estabelece como convivência com forças sensíveis, não como imposição de sentido. O trabalho se constrói na relação entre corpo, cor, gesto e tempo. A imagem se afirma como acontecimento, como campo de experiência no qual o invisível atua de modo concreto e transformador. A excitação do processo reside nessa abertura contínua e na disposição para ser surpreendida pelo que emerge.

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Esse modo de fazer se inscreve numa linhagem de mulheres artistas que sustentaram processos guiados por forças intuitivas, cromáticas e relacionais. Mulheres que confiaram na instabilidade da forma, na potência do gesto e na emergência de imagens que excedem a intenção inicial. Mulheres imbuídas de transformação e compromissadas de fazer nascer novos pensamentos e novas imagéticas partir das clareza das metáforas dos seus processos e sua relação com a vida. Trata-se de práticas que afirmam cores como linguagem ativa, o corpo como lugar de pensamento e a obra como espaço fértil de relação. 

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Habito um estado de lucidez obsessiva. A atenção permanece acesa, o corpo alerta, o olhar disponível. O processo se afirma como prática de presença, em que o sensível conduz e a consciência sustenta. A pintura se torna um campo no qual o invisível encontra forma sem perder intensidade. A tela exige uma horizontalidade relacional e se recusa a fechar seu arco enquanto esse vínculo não se estabelece. Ela demanda uma humildade profunda e um tipo de entrega que expande a racionalidade, levando o pensamento a considerar margens mais amplas, a supor e ponderar mais, a afirmar-se na sustentação da dúvida e da multiplicidade de possibilidades.

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A experiência pictórica afirma a possibilidade de um encontro entre o individual e o universal. No gesto singular, algo se expande. No risco assumido, algo se comunica. A imagem se constrói como lugar de passagem, onde forças íntimas e coletivas se cruzam. O processo se mantém aberto, vivo e em constante transformação. Pintar é um compromisso com a novidade, com novos possíveis e com o indomesticável desejo de subversão do que foi estabelecido e tentado até aqui.

O pessoal é político.

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